Enquadramento

A sociedade está em constante mudança, tendo sido especialmente no século XX que se verificaram algumas das mais radicais transformações [Drucker, 1994]. Essa mudança tem tido implicações a vários níveis, forçando os cidadãos e empresas a adaptarem-se de forma a prosperarem. Ao longo da evolução da sociedade, e consequentemente da economia, de base Agrícola para base Industrial e mais tarde para base Informacional, os Sistemas Produtivos têm acompanhado as mudanças observadas em seu redor [RCBI, 1998]. Será no entanto possível continuar a acompanhar o ritmo vertiginoso destas mudanças?

Como resultado da maior concorrência (devido ao excesso de capacidade de fabrico e à globalização) os produtores viram-se forçados a aumentar a diversidade de produtos e reduzir os custos, o que teve como consequência o aumento da complexidade dos processo de fabrico e tornou as empresas mais susceptíveis a distúrbios do exterior [Albayrak e Bussmann, 1996b] [Bussmann, 1998]. Com todas as convulsões sociais ocorridas nos últimos tempos e tendo em conta os mais diversos avanços tecnológicos, novos desafios são colocados às empresas em geral e ao sector produtivo em particular.

Na senda de resolver tais desafios propõe-se com este trabalho o sistema experimental Fabricare baseado nos paradigmas dos sistemas holónicos, sistemas multiagente e programação em lógica estendida.

Nos últimos anos têm sido observadas várias tendências na sociedade e nos sistemas de produção [Solberg e Kashyap, 1993] [Kusiak, 1990] [NGM, 1997], entre elas: a globalização de mercados; o aumento da personalização de produtos; o aumento da complexidade tecnológica; o aumento da concorrência; a diminuição dos ciclos de vida de produtos; e o aumento dos requisitos de qualidade. Adicionalmente, é necessário prestar especial atenção a questões ambientais e ao custo e consumo de energia.

Destas mudanças observadas, surge uma Nova Economia Digital, Global, Competitiva, e Focada no Indivíduo [Schonfeld, 1998] [Kelly, 1998].

Os avanços nas Tecnologias de Informação (TI) e a popularidade da Internet tornaram possível a existência de uma Economia Digital com troca electrónica de documentação de negócio em grande escala (e.g., facturas, notas de encomenda, descrições de processos) [Schonfeld, 1998] [Korper et al., 1999]. Além disso, também tornaram possível a prestação de serviços de "forma digital" (não convencional) como é o caso da Banca ou Corretoras na Internet.
A abertura de novos mercados na Europa de Leste, bem com a criação de um mercado único na União Europeia (UE); a diminuição de entraves fiscais e medidas proteccionistas às importações/exportações; e (mais uma vez) a ubiquidade da Internet criaram uma verdadeira Economia Global [Kelly, 1998] [Schwartz, 1997]. Podem ser prestados serviços de forma digital em qualquer parte do globo com acesso à Internet e os produtos podem ser entregues graças às grandes multinacionais de distribuição e a acordos/parcerias entre produtores e distribuidores. Redes mundiais de telecomunicações fomentam o comércio global, aproximando-nos cada vez mais da Aldeia Global [Tapscott e Caston, 1993], ao mesmo tempo que o maior acesso à informação favorece os consumidores permitindo-lhes estar melhor informados, tendo consequentemente mais escolhas e como tal mais poder [Langer, 1999].

A globalização tornou possível o acesso a novos mercados, mas também tornou possível o acesso de "jogadores" exteriores aos mercados domésticos de cada empresa [Tapscott e Caston, 1993]. Por outro lado, as redes de distribuição e (novamente) a Internet encurtaram distâncias pelo que uma empresa a milhares de quilómetros é agora concorrente de qualquer empresa convencional. Esta nova configuração criou uma Economia Extremamente Competitiva, mais do que alguma vez visto. Além disso, o estado saudável das economias ocidentais favorece a criação de novas empresas [Atkinson e Court, 1998], aumentando assim o número de competidores ainda mais.
A Sociedade de Consumo Personalizado é uma consequência da tentativa de atingir os gostos individuais de cada cidadão, recorrendo à Personalização em Massa, isto é, ao "desenvolvimento, produção, marketing e distribuição de produtos e serviços personalizados de forma maciça" [Pine et al., 1999]. Ou seja, por outras palavras, pretende-se produzir inúmeros produtos e inúmeras variações desses produtos, de acordo com requisitos específicos dos clientes, em qualquer quantidade, a preços e velocidades semelhantes aos da produção em massa [Davis, 1987] [Rabon e Scheller, 1997] [Martin, 1997] [Cox e Alm, 1998]. Neste cenário a tecnologia desempenha um papel fundamental [Schonfeld, 1998].

Uma empresa de produção necessita então de lidar com o aumento de concorrência, consequente da globalização de mercados, e com o aumento da diversidade de produtos, consequência do crescente foco no indivíduo em vez dos mercados massificados. Para qualquer empresa é fundamental encontrar o seu lugar no triângulo custo-inovação-qualidade, pois estes três vectores condicionam a competitividade da empresa. Nesse sentido, é importante considerar as alterações na sociedade e nas tecnologias como uma força motriz e não como uma condicionante tentando daí gerar mais valias, por exemplo, a Internet permite novas oportunidades de negócio (possibilidade de alcançar novos mercados), bem como as tecnologias de trabalho em grupo permitem a geração de ideias e o aumento da produtividade.

(c) 1999-2001, Paulo Sousa
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Criação: 17 de Janeiro de 2001
Ultima Alteração: 17 de Janeiro de 2001